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Vai levar parto normal ou cesárea?

Por Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, na Folha de S.Paulo

Uma sensação de urgência tomou conta do Brasil, nos deixando a difícil tarefa de lidar com várias questões enquanto o mundo pega fogo. Ainda assim, nunca foi tão necessário estar atento e forte.

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) apresentou projeto de lei que visa dar à mulher o direito de escolher o parto cirúrgico, sancionada pelo governador João Doria nesta semana.

Para quem, como eu, se engaja na luta feminista, qualquer alusão ao direito de escolha da mulher soa irrecusável. No entanto, trata-se de uma falsa escolha baseada em falsas premissas.

Mulheres acampadas em frente a Faculdade de Direito do Largo São Francisco encerram protesto em solidariedade a mãe obrigada a fazer cesárea

A cesariana é um procedimento que salva a vida de milhares de mães e bebês. Por isso, países que não oferecem esse recurso estão entre os que têm a maior taxa de mortalidade materno-infantil.

No entanto, a Organização Mundial da Saúde é muito clara ao revelar que países com taxas de cesarianas acima de 15% sofrem do mesmo mal.

O Brasil emplacou a escabrosa marca de 56%, sendo o segundo no ranking mundial. Por ausência ou excesso, os riscos são igualmente elevados.

A ideia de que a cesariana é inócua é uma mentira tão abusiva quanto disseminada. Trata-se de uma cirurgia de grande porte, com todos os perigos implicados nesse tipo de intervenção.

Além disso, a definição da data provável do parto não é inteiramente confiável. Pediatras têm denunciado a recorrência de imaturidade pulmonar iatrogênica em recém-nascidos.

Os pais, desconhecendo esse fato, acabam por encarar a ida do bebê para a UTI neo-natal como uma fatalidade.

A escolha pela cesariana decorre da história da parturição em nosso país.

Temos um longo percurso de partos vaginais mal assistidos, por profissionais cuja formação é eminentemente cirúrgica e nada sensível à experiência humana do parto. Mas fugir da má assistência ao parto por meio da cirurgia equivale a fugir do incêndio pulando no precipício. E mais, o Brasil mal consegue oferecer a analgesia prevista em lei no parto vaginal, que dirá cirurgia.

Em vez de investir na melhoria das condições do parto, que vinha sendo a meta de administrações anteriores e da sociedade civil, a lei implica um gravíssimo retrocesso. É um exemplo acabado da política da marcha a ré com a qual estamos nos confrontado.

Caberia, então, à gestante a “livre” escolha? Bem improvável, num país cujas pesquisas revelam que gestantes são sistematicamente demovidas de tentarem o parto vaginal sob falsos pretextos.

A mulher é levada a crer que a cirurgia é, de saída, o melhor procedimento, que é inócua para ela e para o bebê, enquanto o parto vaginal seria perigoso sob qualquer circunstância.

O texto é tão mal construído que coloca a parturiente, ou seja, a mulher parindo, para decidir. Algo como perguntar a opinião do atleta olímpico sobre o futuro do esporte durante a prova.

O tipo de parto não está num cardápio a ser escolhido para conforto do consumidor ou do médico.

Parto e nascimento são os únicos eventos fisiológicos não patológicos que implicam risco considerável e cujas intercorrências não podem ser inteiramente eliminadas.

Sustentar esse fato com informação, recursos materiais e humanos é a saída ética para a questão.

Cabe orientar a mulher a lutar pelo melhor parto possível para ela e para seu bebê. E isso não é, como se quer induzir a crer, sinônimo de intervenção cirúrgica nem de parto vaginal. Isso é sinônimo de acesso a pré-natal e de parto bem assistido.

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