Press "Enter" to skip to content

O médico via internet

A revista Exame relata que a internet, como fez com muitos setores, agora pode conectar médicos a pacientes a distância. Os Estados Unidos são o país mais avançado nesse campo. Segundo a previsão da consultoria Forrester Research, o número de consultas médicas realizadas a distância deverá superar o de atendimentos presenciais em 2020.

No Brasil, o tema ainda está em discussão. Em fevereiro, o Conselho Federal de Medicina chegou a aprovar uma resolução que permitia telemedicina e atualizava as regras anteriores, de 2002 – vistas como obsoletas para um mundo em que o smartphone é onipresente. Em menos de 20 dias, a medida foi revogada por causa das críticas da comunidade médica. O tema da telemedicina, porém, é urgente. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma das dez principais ameaças à saúde em 2019 é a falta de acesso à atenção primária, algo que poderia ser resolvido com a tecnologia.

Uma das maiores empresas de telemedicina é a americana Teladoc. Ela oferece atendimento a pacientes por meio de videoconferências com um médico da família. Nas teleconsultas, os pacientes podem receber assistência para problemas de saúde comuns, como enxaqueca, hipertensão e diabetes. No ano passado, 2,6 milhões de atendimentos a distância foram realizados, 80% mais do que no ano anterior. Segundo uma pesquisa com clientes do serviço, o índice de resolução de problemas é de 92%.

A Teladoc diz estar pronta para atuar no Brasil como faz nos Estados Unidos, mas espera uma regulação clara da telemedicina. Por enquanto, a empresa trabalha aqui apenas com orientação médica, sem prescrição de medicamentos por telefone. No futuro, com uma nova regulamentação esperada para 2020, a teleconsulta será usada tanto para fazer a triagem de pacientes para encaminhamento a especialistas quanto para prescrever remédios.

Nos Estados Unidos isso já ocorre. Se o paciente precisa de um remédio que requer receita, o médico pode prescrevê-lo em uma teleconsulta e o paciente pode retirar o medicamento em uma farmácia cadastrada. De acordo com Jean Marc Nieto, diretor executivo da Teladoc no Brasil, apesar de a regulação ainda não estar avançada, a ambição da companhia é tornar-se global. ‘Um estrangeiro que estiver nos Estados Unidos poderá ser atendido por um médico em sua língua e conseguirá uma prescrição’, diz Nieto. Lá, 76% dos hospitais já usam a telemedicina, que é regulamentada em mais de 30 estados americanos.

Não é apenas nos Estados Unidos que a prática vem crescendo. De acordo com a consultoria americana Tractica, o número de consultas remotas, que era de 20 milhões em 2014, chegará a 158 milhões em 2020, um aumento de quase oito vezes. Com mais consultas, cresce também o faturamento das empresas que atuam na área. No ano passado, as receitas no setor de telemedicina no mundo foram de 38 bilhões de dólares e a estimativa é que cheguem a 45 bilhões neste ano – um crescimento de 18% -, segundo a consultoria americana Business Research Company.

Um aumento considerável nas consultas a distância também ocorre no Brasil. Desde 2012, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, atua de forma experimental com telemedicina. A instituição conecta o médico e o paciente por vídeo. Mas, como a regulação não permite uma consulta remota, há médicos dos dois lados da videochamada. A ideia é oferecer atendimento com médicos especializados para determinados pacientes, que são recebidos no hospital por um clínico-geral. Em 2018, foram realizadas 80.000 consultas pelo Albert Einstein, duas vezes mais do que no ano anterior. O serviço também é oferecido a empresas e, nesse caso, o paciente não precisa se deslocar até o hospital em quase nenhuma situação. A consulta é intermediada por um médico no próprio local de trabalho.

Outras companhias do ramo da saúde estão de olho na telemedicina. É o caso da Philips, fabricante de equipamentos médicos. A empresa conta com tecnologias para digitalizar o atendimento, como prontuário eletrônico e armazenamento de informações em nuvem. Para César Giannotti, diretor de soluções corporativas da Philips na América Latina, a telemedicina permite fazer um atendimento contínuo da população. ‘As plataformas de saúde avançaram e a tecnologia de dados foi para a nuvem. Tudo está preparado para atender pacientes, falta apenas a regulação’, diz Giannotti.

Enquanto a prática continua limitada, empresas como a Brasil Telemedicina, baseada em Campinas, no interior de São Paulo, dão um jeito de atender pacientes a distância como podem – apenas por telefone e sem prescrever remédios controlados. Outra empresa é a startup FalaFreud, conhecida por seu aplicativo para conectar psicólogos e pacientes. Fundada pelos brasileiros Renan Pupin e Yonathan Faber, a startup lançou em outubro um aplicativo chamado FalaDoc. Voltado para empresas, a startup espera com o app reduzir o número de idas de funcionários a consultórios ao conectá-los com médicos da família, terapeutas, nutricionistas e até personal trainers. O custo mensal por funcionário será de 90 reais.

GANHO DE EFICIÊNCIA

O Reino Unido é um dos países que apostam na telemedicina para melhorar a eficiência do serviço público. No plano de longo prazo para a saúde pública, anunciado em 2018, o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) prevê que os atendimentos digitais com clínicos-gerais poderão reduzir até um terço do número de visitas aos hospitais nos próximos cinco anos. No país, são feitos 400 milhões de consultas presenciais por ano. A medida ajudaria o serviço de saúde a economizar 1 bilhão de libras no período. Por meio de um site ou de um atendimento telefônico no serviço NHS 111, quem estiver passando mal e não souber o que fazer poderá obter aconselhamento a distância a qualquer dia ou hora. Se necessário, poderá marcar uma consulta.

Além de ampliar o acesso à saúde, a telemedicina traz oportunidades. Para o consultor na área de saúde Guilherme Hummel, coordenador científico da organização sem fins lucrativos Healthcare Information and Management Systems Society, a regulamentação da telemedicina pode movimentar 8 bilhões de dólares no Brasil com o investimento de grandes empresas e startups no ramo. ‘A telemedicina é importante porque a oferta de médicos longe de grandes centros urbanos é menor do que a demanda’, afirma Hummel. Para Leonardo Giusti, sócio da consultoria KPMG, com a aprovação da regulamentação da telemedicina no Brasil, as entidades médicas públicas e privadas poderão melhorar o acesso e os custos do serviço de saúde. Mas, antes, elas precisarão vencer alguns desafios. ‘As grandes empresas terão de se reorganizar para mudar a cultura interna e a forma de trabalhar. O maior desafio é convencer o corpo clínico’, diz Giusti.

Em julho, o plano de saúde Amil lançou um serviço de atendimento por teleconferência em vídeo para os 180.000 clientes do plano Amil One. Após o anúncio, no entanto, a Associação Médica Brasileira fez uma denúncia para a Agência Nacional de Saúde Suplementar por causa da ausência de amparo legal para a prática da telemedicina. ‘A AMB combate o atendimento a distância devido às suas limitações. Há casos em que nada substitui a consulta presencial. Porém, uma vez estabelecidos os parâmetros legais, sem oferecer risco à saúde do paciente, não resta dúvida de que a telemedicina pode ser aplicada’, diz Lincoln Ferreira, presidente da associação. A tecnologia, como se vê, está pronta. O desafio para levar o atendimento a distância aos brasileiros é puramente regulatório.

Please follow and like us:

One Comment

  1. Ricky Oginski Ricky Oginski 14 de janeiro de 2020

    The article has really peaks my interest. I’m going to bookmark your site and maintain checking for brand new information!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial