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Uma nova epidemia

Por Antonio Penteado Mendonça, no Estadão

Mais uma vez a Ásia é o berço de uma nova epidemia. Agora a China foi o local de origem de uma cepa nova de coronavírus, que ataca o pulmão com consequências sérias, inclusive a morte, como resultado.

De tempos em tempos o mundo é chacoalhado por uma nova doença capaz de causar estragos importantes na saúde pública de vários países. Algumas se transformam em calamidades internacionais, outras acabam desaparecendo rapidamente, sem causar muitos estragos, exceto o susto inicial.

Essas epidemias podem custar bilhões de dólares e matar milhares de pessoas, quando não milhões, como aconteceu na epidemia de gripe espanhola que varreu o mundo logo depois da Primeira Guerra Mundial.

Apesar de todas as providências para conter a doença, raramente o vírus fica confinado numa única área. Invariavelmente encontra um caminho para contornar as medidas sanitárias e se espalha pelo planeta, surgindo onde é menos esperado.

Ainda é cedo para dizer se o novo vírus será ou não uma calamidade capaz de causar danos enormes nas populações atingidas. O maior problema é que o vírus surgiu na China, onde habitam mais de 1,4 bilhão de seres humanos, que viajam pelo país, permitindo que centenas de milhares de pessoas sejam disseminadoras do vírus em áreas onde ele ainda não apareceu, sem que o governo tenha meios eficientes de mapear e controlar a movimentação da população e evitar a propagação da epidemia.

Neste momento, mais de 70 milhões de chineses estão confinados, mas o vírus já deixou as fronteiras da China e rapidamente se espalha pelo mundo, chegando, inclusive, à Europa e à América do Norte. Dada a vulnerabilidade da maioria das fronteiras nacionais, é possível esperar o controle eficiente dos viajantes apenas em locais como os portos e aeroportos. Ao longo das fronteiras entre as nações existem milhares de pontos sem vigilância por onde é possível entrar legal ou ilegalmente no país vizinho. Para completar o quadro das dificuldades, este vírus é uma nova cepa de um vírus já conhecido, mas diferente dele. Assim, até se estudar o vírus e descobrir a forma de combatê-lo, a epidemia terá atingido outros continentes, tão distantes da Ásia como a América do Sul.

A eficiência no combate a doenças e epidemias está diretamente ligada ao desenvolvimento e infraestrutura de cada país e sua capacidade de formar e deslocar equipes treinadas e equipadas para enfrentar a ameaça.

Os países da América do Sul não fazem parte da comunidade das nações capazes de alocar grandes recursos nessa empreitada. Assim, a probabilidade de o vírus se instalar na região é concreta. Isso significa que os sistemas de saúde, que já trabalham no limite, serão ainda mais sobrecarregados, obrigando os governos a remanejar suas escassas verbas para fazer frente ao surto da doença.

No Brasil, o plano B se chama planos de saúde privados. As operadoras de planos de saúde privados investem mais do que o governo na prevenção da saúde dos brasileiros. Cinquenta milhões de segurados recebem anualmente algo próximo de 65% do total de recursos destinados à saúde, enquanto os 150 milhões de pessoas das camadas menos favorecidas dividem os 35% restantes.

Há quem diga que os planos de saúde privados não cobrem epidemias e pandemias. Mas isso é teoria. Na prática, não há como pretender alegar a exclusão para se furtar de bancar o tratamento. Basta ver o que acontece com a dengue, para não ficar nenhuma dúvida.

Os planos brasileiros cobrem esses eventos, se não por disposição contratual, por determinação judicial. Caso as operadoras se neguem a atender as vítimas da epidemia, é de se esperar que a Justiça brasileira não hesite em ordenar que os planos paguem o tratamento. Imaginar que ela faria diferente com um vírus com potencial explosivo, como é o coronavírus, seria acreditar em Papai Noel. Em outras palavras, 2020 começa com uma ameaça real, capaz de impactar os custos dos planos de saúde privados, e isso pode repercutir nos aumentos de preços ao longo do ano.

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