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Maioria dos estados ignora protocolo do governo e não indica cloroquina para casos leves

Catorze estados disseram que usam em casos graves, seis, em casos leves e a Paraíba não indica em nenhum caso

Ao menos 15 estados brasileiros ignoraram o protocolo do Ministério da Saúde de ampliar o uso da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves de Covid-19. A recomendação foi feita no dia 20 de maio.

À Folha os entes da Federação afirmam que não há evidências científicas da eficácia do remédio. A cloroquina entrou na agenda política da pandemia no país por causa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que seguiu o exemplo do americano Donald Trump e defende o uso da droga.

Antes da mudança do protocolo, ​a indicação dos medicamentos era apenas para pessoas com sintomas graves e críticos. O medicamento era receitado também a pacientes em acompanhamento hospitalar.

Apesar do empenho de Bolsonaro e do governo em popularizar a substância, na prática houve baixa adesão dos estados aos remédios.

De 21 estados que responderam à Folha, 14 afirmaram indicar os medicamentos apenas para pacientes em estado grave. São eles: Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

A Paraíba não recomenda a cloroquina nem mesmo para casos graves. “Diante dos novos artigos publicados em diversos periódicos médicos, e seguindo as recomendações das instituições que regem as condutas mais atuais das doenças infecciosas no Brasil e no mundo, não recomendamos a utilização de hidroxicloroquina para tratamento de Covid-19”, afirmou o governo do estado, em nota.

Coordenadora de assistência farmacêutica da Secretaria de Estado de Saúde do Paraná, Deise Pontarolli disse que o governo publicou uma nota para orientar o uso de cloroquina apenas em casos graves.

“Não podemos proibir o uso, mas orientamos que não seja usada em casos leves e moderados por causa da falta de evidência de benefício que comprove o uso do medicamento. A nossa pergunta é: usar para quê?”

Apesar de liberar o medicamento apenas para casos graves, o governo do Paraná afirma que pode modificar a recomendação. Isso, porém, dependerá de novos estudos e evidências científicas.

“Há dezenas de estudos clínicos nacionais e internacionais em andamento, avaliando a eficácia e segurança de cloroquina/hidroxicloroquina para infecção por Covid-19, bem como de outros medicamentos, e, portanto, essa medida poderá ser modificada a qualquer momento, a depender de novas evidências científicas.”

No Espírito Santo, um dos argumentos para ir contra o protocolo do Governo Federal é o risco de o medicamento gerar efeitos adversos. “Até o presente momento, não há evidências que recomendem o uso da cloroquina em pacientes com quadro leve”, afirmou o governo, em nota.

Estados como Pará, Rondônia, Roraima, Sergipe, Tocantins e Amapá afirmam que seguem o novo protocolo do Ministério da Saúde.

Como previsto pela pasta, só liberam o medicamento mediante avaliação do médico e assinatura do paciente no termo de consentimento, após orientações do risco e benefício do uso.

Roraima, para evitar maiores efeitos colaterais, adotou uma medida adicional. “Antes do uso da medicação, é feito um ECG [eletrocardiograma] para verificar o intervalo dos batimentos cardíacos. Se a medida for 450 milissegundos, o uso da medicação é liberado”, afirmou o governo, em nota. “Se o ECG apontar um intervalo nos batimentos superior a 500 milissegundos, a recomendação é não usar.”

A médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Pretti Dalcolmo critica o uso do remédio. Segundo ela, a cloroquina e a hidroxicloroquina deixaram de ser usadas em diversos hospitais brasileiros após orientações internacionais começarem a ser publicadas sobre o tema. Isso porque a substância se mostrou ineficaz em diversas ocasiões, até mesmo em casos graves.

“O medicamento era considerado um fármaco da esperança, mas ao longo desse tempo se mostrou sem benefício. Não há nada que tenha demonstrado que ele tem salvado vida em qualquer parte do tratamento”, disse Dalcolmo. “Já foi demostrado exaustivamente que ele não traz benefício para o tratamento em casos graves.”

Nesta segunda-feira (15), a FDA (agência que regula medicamentos nos EUA) revogou a autorização de uso emergencial da hidroxicloroquina para tratar Covid-19.

O órgão americano disse que, com base em novas evidências, não é mais razoável acreditar que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam ser eficazes contra a nova doença.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) mantém estudos clínicos com hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19 no programa internacional Solidarity. A entidade havia suspendido, em 25 de maio, as pesquisas com o medicamento para reavaliar a segurança.

Fonte: Folha de S. Paulo

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