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Enlouquecimento ou confusão mental transitória durante a pandemia?

Dr Julio Peres, referência no Brasil como psicólogo clínico, especializado em superação, doutor e pós-doutorado em Neurociências, levanta uma questão fundamental: o suposto enlouquecimento durante a pandemia e diagnósticos equivocados. Nesta entrevista, ele aponta 14 dicas preciosas para garantir a saúde mental de quem amamos.

Além dos conhecidos transtornos ansiosos e depressão, qual fenômeno psicológico mais chama sua atenção como clínico atualmente?
Julio Peres
– Nos dois últimos meses, observei aumento significativo da procura de familiares, principalmente filhos de pessoas que estão supostamente “enlouquecendo” na quarentena. Chamou-me atenção esta queixa recorrente com características similaridades e disparadores associados à fase pandêmica. Portanto, devemos todos tomar muito cuidado com diagnósticos fechados precoces e potencialmente equivocados emitidos nesta fase, tais como Esquizofrenia, Transtorno Bipolar, Depressão Psicótica e Transtorno Delirante. O que possivelmente a maioria das pessoas que apresentam circunstancialmente estado confusional, desorganização comportamental, alucinações, delírios e persecutoriedade (crenças irrealistas geralmente associadas a pessoas e/ou grupos ameaçadores que planejam algo contra o indivíduo em sofrimento) são quadros deflagrados pelas condições de isolamento social e reversíveis (não duradouros) a partir das terapêuticas adequadas.

Todas as queixas psicológicas atuais são causadas pelo isolamento social?
Peres
– Não. É uma generalização equivocada considerar que todas as alterações da saúde mental do momento sejam decorrentes da pandemia. Contudo, mesmo constatando a predisposição individual para quadros depressivos, ansiosos e psicóticos, o isolamento social e seu amplo leque de difíceis ocorrências estão, de fato, desencadeando em muitas pessoas quadros não manifestos antes da quarentena. Assim como a configuração do Transtorno de Estresse Pós-Traumático entre outros fatores envolve a freqüência e a intensidade dos eventos estressores, outros adoeceres psicológicos também estão correlacionados com a intensidade e freqüência de situações desafiadoras no âmbito psicológico para as quais as pessoas não estavam preparadas ao manejo saudável.

Qual o impacto psicológico de deixar de viver a vida “lá fora” e ficar confinado?
Peres
– Principalmente em centros urbanos, poucos estavam familiarizados com uma harmoniosa convivência íntima consigo mesmos, considerando suas vidas muito além da “correria” e dos afazeres práticos do dia-a-dia. As pessoas que tinham rotinas no “mundo externo” e consideravam as suas vidas definidas por suas atividades e trabalhos pragmáticos, sentiram-se inesperadamente roubadas de seus viveres a partir da quarentena. Esta terrível perda subjetiva da própria vida, combinada às inseguranças, incertezas e despreparo para construção de um nova maneira de viver consigo sem as referências previamente conhecidas, pode ser comparável ao que chamamos em Psicologia de Luto Patológico. Este sofrimento converge a perda de alguém, de algo, de valores e significados que definem o indivíduo, e é considerado por vários autores como a maior dor desestruturante que o ser humano possa experimentar. Assim, essas pessoas se desidentificam delas próprias e mostram grande dificuldade para reencontrarem suas identidades, considerando que elas não se reconhecem mais como eram, porque não fazem mais o que faziam. Os sintomas de estranhamento em relação as pessoas e ambientes familiares simbolizam a perda do “fio da meada” que conduzia o indivíduo a sua identidade pessoal.

Como os familiares podem ajudar aquele que parece estar enlouquecendo?
Peres
– É minha responsabilidade como psicólogo clínico trazer este importantíssimo tema recorrente do suposto enlouquecimento à tona. Meu objetivo é orientar famílias que vivenciam o profundo sofrimento e assistem de maneira impotente o adoecimento mental de um ente querido. Alguém que não mais se reconhece como era antes da quarentena.

14 ações para salvar a saúde mental da sua família

Seguindo estas 14 simples orientações, podemos ajudar significativamente uma pessoa em confusão mental transitória:

1) Consulte dois profissionais experientes da Saúde Mental, um psiquiatra e um psicólogo, que considerem as variáveis circunstanciais da pandemia para que diagnóstico e tratamentos psicoterapêutico e medicamentoso sejam assertivos. Estudos clínicos sobre a retomada do equilíbrio mental mostram que a combinação entre psicoterapia e medicamentos surtiu significativos melhores resultados em comparação a outros grupos controles;

2) Seja a sua melhor versão no relacionamento com a pessoa que sofre. Nós todos temos neurônios-espelho e podemos tanto influenciar as pessoas como sermos influenciados por elas. Cultive especialmente a paciência, a compaixão e a generosidade. Fale e repita suas respostas às perguntas de quem sofre quantas vezes forem necessárias de maneira respeitosa, calma e amorosa mesmo que ele(a) esteja ou continue agitado(a). As virtudes estiveram significativamente relacionadas ao crescimento pós-traumático e os exemplos saudáveis dos próximos mais próximos foram de grande importância nestes processos de superação;

3) Cuide tanto quanto possível das bases fisiológicas do bem-estar: sono preservado, alimentação nutritiva, atividade física moderada com o peso do próprio corpo. Assim, estas bases ajudam a retomada da Saúde Mental, ao invés de corroborar com adoecimento. Geralmente a confusão mental acompanha agitação e ansiedade, enquanto o ritmo interno mais tranquilo favorece processamentos cognitivos claros e coerentes. Práticas suaves contemplativas e sensoriais, como ouvir músicas tranquilas, ampliar o banho confortável, respirar com calma, relaxamento etc., que favoreçam o tranquilizar dos ritmos internos – frequências respiratória, cardíaca e cerebral – são igualmente importantes para retomada da Saúde Mental no dia-a-dia;

4) Procure conectar o ente querido em confusão mental com afazeres simples ou manuais conhecidos de maneira que ele(a) possa reconhecer novamente suas habilidades pessoais e observar “concretamente” no mundo físico as suas produções;

5) Solicite aos familiares e amigos que gravem vídeos curtos sobre o que eles admiram na pessoa que sofre, de maneira que ele(a) possa lembrar de suas qualidades, talentos e capacidades ressaltados pelas pessoas que realmente o(a) conhecem;

6) Resgate memórias emocionais agradáveis, passagens mais gratificantes da infância, da adolescência e da idade adulta. Nossas memórias nos definem e as lembranças dos bons momentos reconectam o indivíduo a sua autobiografia e identidade. Apenas boas memórias devem ser estimuladas;

7) O confinamento em um mesmo ambiente físico por muito tempo converge para o espelhamento das projeções distorcidas e confusas do ente querido. Respeitando os cuidados pertinentes ao distanciamento social, leve a pessoa que sofre a locais que ele(a) gosta ou gostava de frequentar e ao encontro de pessoas com as quais gosta ou gostava de conviver antes da quarentena como estratégias psicológicas para reestabelecimento do elo com os afetos positivos e dados de realidade;

8) Evite notícias e eventos estressores tanto quanto possível e favoreça o contato do ente que sofre com hobbies, assim como as expressões prazerosas mais destacadas – músicas, programas, filmes, pratos preferidos -, do passado próximo ou distante;

9) Compartilhe fatos simples sobre o que está acontecendo e forneça informações claras realistas com o objetivo de desconstruir as falsas crenças que “atormentam” o ente querido em confusão mental. Geralmente os enredos das confusões mentais se relacionam com os temores e traumas do passado. Verbalize frases curtas, convictas, imbuídas de afeto e conforto repetidas vezes sempre que a inquietude aflorar (ex.: você está seguro… tudo está bem e assim continuará…);

10) Favoreça outras possibilidades de expressões além da verbal, inclusive artísticas, que possam representar as percepções confusas do familiar que sofre, de maneira que você possa conversar a respeito e representar com a mesma estratégia (por exemplo um desenho) as referências saudáveis, realistas e atuais que promovam a desconstrução das falsas crenças;

11) Procure sensibilizar o humor por meio de comédias, passagens engraçadas do passado, boas piadas, vídeos disponíveis com pessoas sorrindo (contágio de comportamento saudável) de maneira que as endorfinas sejam segregadas, conferindo sensações agradáveis que convidam a retomada gradativa do bem-estar;

12) Evite o uso de substâncias psicoativas lícitas (inclusive café e chás com cafeína) que estimulam o sistema nervoso central, automedicação (medicamentos para dormir em dosagens erradas podem causar toxidade e delírios) e qualquer tipo de droga;

13) Atualmente, centenas de estudos mostram que a espiritualidade e a religiosidade na maioria das vezes impacta positivamente a Saúde Mental. Caso a religiosidade e a espiritualidade sejam provedoras de conforto, amparo e bem-estar para quem sofre, a prática da oração e outras dentro deste escopo também serão bem-vindas;

14) Muitas pessoas bem intencionadas não colaboram e por desconhecimento cometem erros contraproducentes como críticas, tom de voz ríspido, conflitos etc… que devem ser evitados. As informações reais que contrapõem as falsas crenças devem ser trazidas sem preconceitos, com tranquilidade e paciência. Uma rede de apoio social bem orientada sobre como ajudar é muito importante. Oriente os familiares e cuidadores que ajam de maneira uníssona ou pelo mesmo semelhante conforme as orientações acima.

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