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Tratamentos reprodutivos em tempos de Covid-19

Depois de muitas pesquisas da comunidade científica, novas diretrizes foram tomadas visando a saúde e a segurança para tentantes que planejam o seu núcleo familiar

Dr. Waldemar Carvalho (CRM/SP 86.113), @waldemarcarvalho, é Ginecologista e Obstetra e especializado em Reprodução Humana pelo Portland Fertility Center de Londres, Inglaterra. Referência em reprodução humana assistida, preservação da fertilidade feminina e planejamento reprodutivo, fundou a dirige a clínica Tempo de Fertilidade.

Uma pandemia, seja ela qual for, sempre vai interferir na vida de todos. Na história da humanidade já enfrentamos diversas pandemias que destruíram muitas vidas e hoje, frente do SARS Cov-2, mais conhecido como Covid-19, não seria diferente. Esse vírus nos trouxe um grande desafio que foi a inexistência de uma medicação antiviral para o tratamento de urgência, como ocorreu anteriormente com outras doenças virais, como a gripe por H1N1, por exemplo.

Nos primeiros meses de isolamento social, só queríamos nos proteger, pois com a taxa de mortalidade alta e grupos de risco ainda pouco definidos, não nos permitiam seguir nossas rotinas e nem mesmo ir a Prontos Socorros por questões menos graves, ou realizar cirurgias não urgentes. A maioria dos nossos planos precisaram ser postergados. Foi neste momento que o dilema da maternidade chamou a atenção de uma parcela de mulheres e casais que poderiam ver ali seu sonho reprodutivo desmoronar de vez.

A incógna de que o Covid-19 poderia afetar ou não o feto ou o recém-nascido foi tema de discussões científicas por pelo menos dois meses – março e abril – e a falta de respostas da medicina reprodutiva, acabou levando ao desespero um grupo de mulheres que viram desaparecer suas chances de terem filhos próprios. Este grupo era composto, principalmente, por mulheres com baixa reserva ovariana ou com número reduzido de óvulos, mulheres com diagnóstico de câncer, frente a um tratamento quimio ou radioterápico com necessidade de preservação de fertilidade e, por fim, mulheres com idade acima de 40 anos, que, além da redução sabida do número e qualidade dos óvulos, apresentam maior risco de doenças genéticas, entre as quais a Síndrome de Down, e até abortamentos.

Frente a esta situação de enorme preocupação relacionada aos grupos específicos citados acima, as sociedades brasileiras de reprodução humana e assistida se manifestaram e ofereceram opções para que a pandemia não destruísse o sonho de tantos casais ou tentantes solo. Assim, a partir de maio deste ano, garantindo todos os processos para a máxima segurança assistencial, as clínicas de reprodução assistida prepararam-se para o atendimento e realização de procedimentos nos casos onde houvesse risco de perda ou privação do futuro reprodutivo, selecionados segundo avaliação criteriosa baseada nas recomendações das duas sociedades brasileiras de reprodução.

Passados seis meses de pandemia, o que percebemos em relação à gravidez e aos tratamentos reprodutivos é que a mulher grávida tem o mesmo risco de complicações relacionadas à infeção pelo Covid-19 do que as mulheres não gestantes com as mesmas características e, desde que não apresente outros fatores de risco, como obesidade e diabetes, não há maiores repercussões para a mãe nem para o bebê. Posso apontar um exemplo sobre isso. Uma pesquisa realizada durante os dias 13 a 25 de março, pelo Centro de Medicina da Universidade de Columbia, em Nova York, EUA, revelou que, entre 43 grávidas que participaram do estudo, 37 (86%) possuíam sintomas leves, quatro (9,3) sintomas graves e duas (4,7) apresentaram quadro crítico. Também não foram detectados casos confirmados em neonatos após teste inicial no primeiro dia de vida.

Portanto, considerando os casos específicos comentados anteriormente, a mulher que desejar preservar sua fertilidade poderá aproveitar o momento para fazê-la, sabendo que deverá respeitar o isolamento social na época do tratamento, pois, caso o exame para Covid-19 teste positivo, o procedimento deverá ser postergado. Por último, os tratamentos para engravidar que seguiram as normas apresentadas pelas clínicas têm demonstrado ser extremamente seguros e eficazes, tendo em vista os dados preliminares não demonstrarem queda nas taxas de sucesso dos tratamentos.
Curiosamente, o medo de engravidar neste período do “novo normal” fez com que que uma série de mulheres procurassem preservar sua fertilidade por meio do congelamento dos seus óvulos e alguns casais optarem por fazer a fertilização e armazenar os embriões, assim postergando a gravidez para algum período que ofereça algum tipo de segurança. Na verdade, mesmo sendo um momento de muitas incertezas em relação ao futuro, a saúde reprodutiva acabou entrando no hall de prioridades de tratamento por se tratar de uma decisão relevante na constituição da família, seja ela para o presente ou para o planejamento futuro.

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