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Fadiga Pandêmica: 365 dias se passaram e psiquiatra analisa o novo comportamento da população

Há um ano, estávamos com sentimento de medo, reclusos em casa por conta da primeira onda da COVID-19. Após 365 dias, as mesmas emoções permanecem na rotina das pessoas, agora com o agravante do esgotamento que a pandemia nos condiciona.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a “Fadiga Pandêmica” afeta até 60% da população. Para a psiquiatra Maria Francisca Mauro, isso se deve a ausência de prazo para a resolução do problema em que estamos vivendo, como se isso fosse “minando” as perspectivas dos que estão mais cansados.

“Dentro destes que se sentem esgotados, pode ocorrer mais tristeza, apatia, dificuldade para estabelecer uma rotina, perda de interesse, indiferença aos fatos e acontecimentos, pensamentos de que a vida somente terá valor após a resolução da pandemia. Alterações do sono e dificuldade para dormir também são alguns sintomas. Quanto ao apetite, ele pode estar diminuído, sem horários para refeições, ou ao contrário, com um valor de ‘recompensa’ para aliviar o desconforto emocional”, pontua a especialista que é Mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A psiquiatra acredita que isso acontece porque, de alguma forma, a pessoa sente que já deu o seu máximo para que pudesse se adaptar ao contexto, mas que não encontra mais recursos emocionais para driblar ou superar todas as mudanças envolvidas com a pandemia.

Por outro lado, após um ano, as pessoas estão menos motivadas a seguir comportamentos preventivos. Mas você sabe como a nossa mente atua nesses casos?

Essa e as principais dúvidas sobre o tema, Maria Francisca Mauro esclarece a seguir. Confira:

Como a mente atua nesses quadros e nos faz ter vontade de “burlar” o isolamento e cuidados?

Ao longo dos meses aquele sentimento de ameaça iminente do primeiro momento vai ganhando um contorno menos aflitivo para a maioria das pessoas. O que era tão desconhecido e aterrorizador se torna a rotina.

O cérebro se adapta aos estímulos de desconforto, diminuindo as respostas de sensação de ameaça que eram tão intensas no início. Entretanto, isto acontece com pessoas que não têm nenhuma perda ou morte pela pandemia, ou que não convivem com os fatos. Assim, passam a realizar pequenas “contravenções”, como se esquecer de higienizar as mãos ou se expor mais em aglomerações.

Ao saírem sem se contaminar destas situações, vão reforçando a tranquilidade para se expor. Um caminho inverso quanto aos cuidados necessários, pois vão ganhando confiança ou mesmo ignorando os riscos, até que algo ruim aconteça por perto ou mesmo se confrontem com a contaminação pelo COVID-19 com uma forma mais grave de sintomas.

Como trabalhar a mente para que os esforços para combater o vírus sejam mantidos por nós?

É preciso acompanhar os fatos, assistir noticiário, ler jornais e observar como os outros países estão enfrentando a pandemia. Ao conseguir concluir que a solução não é tão mágica quanto a “imunidade de rebanho”, uma perda próxima que aconteça se torna mais crítico quanto ao que se lê nas redes sociais.

Neste momento, manter o esforço diário implica em reflexão mediante os fatos, como o cálculo de riscos de exposição versus o de contaminação, posicionamento na cadeia de transmissão e coerência.

Nada fácil para um tempo tão prolongado, mas que não pode ser simplesmente apagado do GPS interno de cada um.

É natural se sentir apático e desmotivado depois de um ano de pandemia? De que maneira podemos revigorar nossos sentimentos positivos neste momento?

Sim, pois muitas pessoas sentem que já esgotaram seus esforços. A apatia e desmotivação precisam ser compreendidas, para não serem ignoradas. A pessoa precisa observar o que mais a influencia ou deixa sem esperança, para poder tentar uma resolução.

Alguns exemplos são: pressão na casa pelo ensino das crianças, sobrecarga de trabalho, falta de interesse pelo ensino de forma on-line, diminuição de contextos sociais de prazer.

Cada uma pode ser cuidada com estratégias para desencadear maior prazer ou envolvimento. No entanto, se mesmo buscando alternativas que a conecte mais na sua rotina ou alívios para seus problemas, e nada fizer sentido, chegou a hora de buscar ajuda profissional de um psiquiatra. 

O que mudou no pensamento das pessoas durante esse ano?

Quando se fala “pensamento das pessoas” se coloca todos em um mesmo processo ou fluxo de mudança, o que na realidade não é acontece.

Alguns nada mudaram, permanecem apenas seguindo seus dias. Uma parte das pessoas foi confrontada com o imponderável e a falta de controle por situações que não conseguem modificar. Dentro deste grupo, alguns reagiram de forma passiva, aguardando a resolução dos fatos externos, ou se empenharam de alguma forma no início, mas agora já cansaram e estão indiferentes ao que está acontecendo. Outra parte mergulhou internamente, ponderando mudanças em sua vida que antes não tinham “coragem” ou “tempo” para perceber, e agora constataram que não têm como ignorar estratégias necessárias para que possam prosseguir sua vida.

É importante cada um tentar refletir o que foi este ano tão emblemático, com todas as suas marcas e consequências, para que possa para além das perdas e dificuldades, obter algum aprendizado.

Você acredita que o comportamento restrito por causa da doença, que nos obriga a ficar isolados, impactou negativamente em nossa rotina e resultou em crises de pânico, de ansiedade e outros problemas psicológicos em mais pessoas? É possível reverter esses quadros? Como?

O que de fato aconteceu foi um esgotamento de recursos que as pessoas encontravam para aliviar seus sintomas emocionais. Assim, muitas se viram “contra a parede” com seus sentimentos, em níveis de grande sofrimento. As que são mais suscetíveis tiverem maior intensidade destes desconfortos, como sintomas de depressão; ansiedade; crises de pânico; descontrole com a comida ou outras substâncias, como o álcool.

Neste sentido, a impressão é um aumento geral de quadros psiquiátricos, pois ao invés da pressão individual que acontece ao longo da vida de cada um, tivemos uma pressão enorme de forma simultânea em toda população.

As pessoas que estão com aumento de sintomas emocionais, de uma forma disfuncional em suas vidas impactando com prejuízo para sua forma de conviver consigo mesmo, ou com dificuldade para realizar suas atividades, precisam buscar ajuda de um profissional da saúde mental (psicólogos e psiquiatras). A possibilidade de reversão deste quadro não pode ser ignorada ou negligenciada.

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