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Em celebração ao Dia Mundial da Conscientização do Autismo (02/04), médicos alertam para os desafios criados pela pandemia e reforçam importância do diagnóstico precoce

Especialistas defendem que pessoas com autismo tenham prioridade no plano nacional de imunização contra a Covid-19

Médicos, pesquisadores e ativistas de entidades não-governamentais de apoio a pessoas com deficiência, defendem que portadores do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) tenham prioridade no plano nacional de imunização contra a Covid-19. A médica especialista em terapia comportamental da Universidade de São Paulo (USP), Juliana Vianna Centeno de Azevedo, considera pertinente essa reivindicação.

“Sem dúvida, pessoas com TEA devem ser consideradas prioritárias no plano nacional de imunização. Além das comorbidades que podem estar associadas ao transtorno, uma grande parcela das pessoas dentro do espectro tem enorme dificuldade de seguir os protocolos de prevenção, como uso de máscaras e higienização das mãos, ou não levar a mão à boca”, argumenta a médica.

Ela explica, ainda, que essa população necessita manter tratamento com terapias clínicas, que em geral envolvem exposição a centros de atendimento diversas horas por semana. “Ao negarmos a vacina a essa população, ou iremos negar o direito ao tratamento enquanto a pandemia perdurar ou expô-la a um enorme risco de contágio”, alerta.

Para ela, neste cenário crítico da pandemia no Brasil, as atividades que celebram o Dia Mundial da Conscientização do Autismo (02.04), instituído pela ONU, têm ainda mais importância. “Quando penso nessa questão, me vem em mente como os pais de crianças típicas têm enfrentado a dificuldade de conciliar a paternidade com o trabalho em home office, ou as aulas online. Imagine tudo isso com uma criança que não se adequa ao ensino à distância, que tem dificuldade de compreender as regras impostas pela pandemia e que sofre muito pela falta de rotina. Em solidariedade a essas pessoas e suas famílias, que enfrentam a pandemia com pouco suporte, dificuldade de manter suas terapias e desafios inimagináveis, neste ano esta data ganha uma relevância ainda maior”, pondera.

A médica alerta que a data é uma oportunidade de conscientização para toda a sociedade. “Pessoas dentro do espectro do autismo passam a vida tentando se adaptar a um mundo que não é adaptado a eles. Familiares de pessoas com TEA se desdobram para tentar inclui-los, mas pouco se fala em como pessoas que não têm filhos dentro do espectro podem fazer isso. Será que pensamos quando convidamos uma família que tem uma pessoa com TEA para um aniversário, no que podemos fazer para que aquele indivíduo se sinta mais confortável? Será que o som alto pode incomodar? Será que o excesso de estímulos luminosos pode levar a uma crise? Será que há alguma atividade que essa pessoa possa aproveitar nesse evento? Se você ainda não se questiona sobre isso, comece. Essas pessoas são cidadãos do mundo e tentar inclui-los é um dever de todos nós”, alerta.

O que é TEA

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por dois grandes pilares: o primeiro é o transtorno sociocomunicativo, e segundo, padrões estereotipados e repetitivos de comportamento. “Por tratar-se de condição espectral, é bastante importante compreendermos que dentro destes dois pilares teremos indivíduos que diferem enormemente em funcionalidade” explica a médica Juliana Vianna Centeno de Azevedo.

“Por exemplo, quando falamos no aspecto sociocomunicativo, temos desde crianças que não falam e apresentam enorme dificuldade em todas as formas de comunicação e interação social, até aquelas capazes de se comunicar bem, mas que não compreendem sarcasmo e piadas, ou apresentam alteração de prosódia, com uma fala rica, porém ‘robotizada’, e que, apesar de uma forma bem diferente do primeiro exemplo, também nos demonstram uma alteração dos aspectos sociais da comunicação”, destaca.

“Quando pensamos no segundo pilar, de padrões de interesse restrito e estereotipados de comportamentos, são comportamentos que emergem na tentativa de aliviar um cérebro em desordem e que gera alterações sensoriais importantes. Esses comportamentos se apresentam desde os quadros mais clássicos como balançar os braços, o corpo, andar nas pontas dos pés ou lateralizar o olhar, até um interesse perseverante sobre astronomia, matemática ou pinguins” completa Dra. Juliana. “É importante ressaltar que apesar de diferirem muito em termos de funcionalidade, o que se observa é um mesmo padrão de comportamento adaptativo, na tentativa de organizar um cérebro em desordem”, finaliza.

Cuidados de Atenção Primária à Saúde

O modelo de cuidado de Atenção Primária à Saúde pode contribuir com os tratamentos. “Já é consenso na literatura que a intervenção precoce tem um grande impacto no prognóstico desses pacientes. Os cuidados de APS são a porta de entrada dessas crianças. Uma consulta de puericultura bem-feita, com triagem cuidadosa dos marcos de desenvolvimento, pode ser fundamental para acender o sinal de alerta para a investigação do TEA permitindo, assim, o diagnóstico precoce, que terá impacto enorme no tratamento e no prognóstico”.

O Dr. Rafael Placeres, pediatra da Clínica Personal da Central Nacional Unimed, também destaca a importância do cuidado de APS, para o diagnóstico precoce e posterior acompanhamento. “Uma equipe multidisciplinar, formada por médico de família, enfermeira e pediatra, têm total condição de fazer o diagnóstico precoce, avaliando se o desenvolvimento neuro-psico-motor da criança é adequado para a idade”.

Ele alerta que no Brasil, na maioria dos casos, o diagnóstico é tardio, por volta de 4 a 6 anos de idade. “A criança com TEA precisa de acompanhamento de uma equipe multidisciplinar de especialistas – neuropediatra ou pediatra especializado, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, assistente social – e se o acesso a esse acompanhamento for precoce, maior será o seu desenvolvimento”, explica.

Equidade é um dos princípios doutrinários do Sistema Único de Saúde (SUS) e tem relação direta com os conceitos de igualdade e de justiça. Dr. Rafael Placeres recorre a esse conceito para mandar um recado para a sociedade, em especial para as famílias e às pessoas que se dedicam ao atendimento de portadores de TEA. “A gente precisa reconhecer as diferenças e atender as necessidades de cada indivíduo. É importante que possamos vencer o preconceito, as barreiras. Eu me solidarizo com os pais de autistas e peço que eles sempre acreditem no potencial de seus filhos e procurem ajuda, seja de profissionais especializados, ou mesmo de pessoas que possam oferecer uma escuta, um ombro amigo, quando necessário”, finaliza.

Principais tratamentos

Embora a ciência tenha evoluído muito no estudo das questões genéticas e bases fisiológicas do autismo, os tratamentos que apresentam maiores níveis de evidência ainda são pautados nas terapias clínicas, em especial, comportamentais baseadas em Análise do Comportamento Aplicada e as práticas fonoaudiológicas. A Análise do Comportamento Aplicada (ABA- Applied Behavior Analysis) costuma ser erroneamente designada como um método. Na verdade, a ABA trata-se de uma ciência, não um protocolo predefinido. Dentro dessa ciência, alguns modelos e protocolos foram desenvolvidos, por exemplo, o PECS (Picture Exchange Communication System), um protocolo que usa a Análise do Comportamento Aplicada, para estabelecer comunicação por troca de figuras. Já o Modelo Precoce de Denver, utiliza a Análise do Comportamento Aplicada, para um protocolo que parte das práticas naturalística de ensino, para intervenção precoce. “Todos com alto níveis de evidência quando aplicados por profissionais qualificados”, pondera Dra. Juliana.

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