Press "Enter" to skip to content

Covid-19: Sem uma agenda estabelecida, pacientes oncológicos aguardam por vez na fila da vacinação prioritária

Estudo brasileiro mostra que pacientes com câncer têm taxa de mortalidade pelo novo coronavírus seis vezes maior; Priorização da vacinação de pessoas com comorbidades, entre elas mais de 1,5 milhão que estão em tratamento contra tumores malignos, já passou por adiamentos e ainda não tem critérios claros expressos pelo Governo Federal

Com taxas elevadas de contaminação e mortes pela COVID-19, o Brasil apresenta um dos piores cenários globais da pandemia. Diante de muitas incertezas, a população em geral acompanha o calendário da vacinação contra o novo vírus ainda sem ter uma previsão concreta de quando haverá efetivamente um horizonte favorável para contenção da crise humanitária e de saúde pública que vivemos. E é diante dessa realidade que a parcela de 17,8 milhões de brasileiros com comorbidades ainda aguarda por uma data na agenda do Plano Nacional de Imunização (PNI).

Segundo informações oficiais, ao término da fase atual, que contempla idosos de 60 a 64 anos, professores com mais de 47 anos e profissionais da força de segurança, seria iniciada a imunização desse grande grupo que apresenta doenças que favorecem o agravamento do coronavírus. A forma como essas prioridades serão organizadas, porém, ainda não foi definida pelo governo federal e depende da disponibilidade de doses da vacina, o que deve promover a necessidade de regras para formatação de uma fila.

Entre esse contingente de brasileiros que aguarda sua vez de receber o imunizante estão os mais de 1,5 milhões de pacientes oncológicos que dependem de tratamento ativo. Somados a eles, ainda neste ano outros 625 mil novos nomes devem entrar para essa lista em 2021, considerando a estimativa de novos casos de neoplasias malignas a serem diagnosticados neste ano, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Um estudo recente liderado pelo Grupo Oncoclínicas, publicado no Journal of Clinical Oncology (JCO), mostrou os impactos da Covid-19 entre brasileiros que têm câncer. Os resultados indicam que nesta parcela da população a taxa de mortalidade pelo vírus foi seis vezes maior se comparada aos números gerais registrados até aqui. Ao todo foram 198 participantes pesquisados, sendo que 167 (84%) tinham tumores sólidos e 31 (16%) neoplasias hematológicas (no sangue). A maioria deles estava em terapia sistêmica ativa ou radioterapia (77%). A mortalidade geral por complicações de Covid-19 foi de 16,7%, sendo que, em modelos univariados, os fatores associados à morte após o diagnóstico de contaminação pelo coronavírus foram tratamento em um ambiente não curativo, tabagismo atual ou anterior, comorbidades coexistentes e câncer do trato respiratório.

Primeiro autor da análise, o fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Oncoclínicas Bruno Ferrari explica que essa descoberta traz subsídios importantes para que seja desenhada uma estratégia de imunização que atenda com o máximo de celeridade esses pacientes. “O estudo endossa as recomendações para termos ações que contribuam para minimizar os riscos de infecção pelo SARS-CoV-2 entre pacientes com câncer e indica o senso de urgência da vacinação para essas pessoas. Diante do cenário que vivemos, com altos índices de contaminação e ocupação dos leitos hospitalares no limite, temos que considerar a inclusão específica dessa parcela da população no Plano Nacional de Imunização como uma medida importante para garantir que essa parcela da população tenha sua necessidade priorizada e respeitada”, explica.

O oncologista lembra que o câncer faz parte do rol de doenças cujo tratamento não pode ser considerado eletivo, conforme estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde. “Ainda que a OMS ressalte não ser possível ter uma visão apurada neste momento dos impactos diretos da pandemia na luta contra o câncer, a entidade alerta que há motivos efetivos para nos preocuparmos com as consequências desse cenário para a oncologia”, afirma.

Bruno Ferrari destaca ainda que, apesar de todos os fluxos nos centros de tratamento estarem seguindo os mais rígidos protocolos para assegurar um ambiente livre de contaminação, sem um horizonte claro de imunização muitos pacientes oncológicos ainda sentem receio e têm deixado de realizar sua linha de cuidado da forma devida, o que trará prejuízos futuros ao seu bem-estar, qualidade de vida e à própria luta global contra o câncer.
Pandemia levou à queda no número de tratamentos e diagnósticos de câncer

De fato a COVID-19 vem impactando diretamente a saúde para muito além do próprio risco de contaminação pelo novo vírus. O Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) realizou em 2020 um levantamento em que as mais de 700 pessoas consultadas, entre pacientes oncológicos, cuidadores e profissionais de saúde, disseram sentir o impacto da pandemia na oncologia. Dos pacientes entrevistados, 38% afirmaram ter remarcado por decisão própria ou a pedido da instituição onde realizam acompanhamento de suas consultas com o especialista e 28% sofreram alterações de agenda para realizar os exames de acompanhamento da doença.

Do lado dos profissionais de saúde, 34% afirmaram que tiveram pacientes com cirurgias oncológicas adiadas e que entre os tratamentos mais comuns indicados para tumores malignos, 17% observaram que foram necessárias remarcações de sessões de radioterapia e outros 15% de quimioterapia.

Dados como estes são alarmantes, já que o tratamento do câncer não deve parar. “Para o paciente, a interrupção na linha de cuidados pode levar ao agravamento da doença e de fato reduzir amplamente as chances de cura. Há um ano estávamos aprendendo a lidar com a falta de conhecimento sobre o novo coronavírus e, de fato, a ausência de informações precisas acabou gerando uma onda de adiamentos das terapias por pacientes receosos com uma possível exposição à Covid-19”, destaca Bruno Ferrari.

E o problema não se restringe ao medo de quem depende de tratamento contra tumores malignos. Outros estudos mostram a mesma tendência negativa com relação aos exames de rastreamento preventivo e diagnóstico. O relatório Radar do Câncer, divulgado em março pelo Instituto Oncoguia com informações do DataSUS, aponta que o volume de biópsias realizadas no país teve uma queda em números absolutos de 737.804 para 449.275, quando comparados os meses de março a dezembro do ano passado com o mesmo período em 2019. Isso significa uma redução de 39% na realização desse procedimento que, apesar de classificado como eletivo, é essencial para a definição de condutas no combate ao câncer.

“O adiamento nos acompanhamentos médicos de rotina podem ter como consequência um aumento nos índices de tumores descobertos em fase mais avançada, o que poderá reduzir as chances de cura em muitos casos. E esse é um problema de saúde pública que deverá mudar o panorama do câncer, com aumento da letalidade e reflexos negativos em termos de qualidade de vida dos pacientes”, diz o fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Oncoclínicas.

E o alerta não é só para quem precisa de cuidados médicos continuados, mas também para a população em geral: não descuide da saúde. Em caso de sintomas ou sentindo algo errado, é preciso procurar um médico. Neste momento, diante do receio de sair de casa para buscar aconselhamento especializado, há a alternativa de agendar uma consulta remota para evitar deslocamentos desnecessários.

“Nada substitui uma consulta presencial, mas esses são tempos diferentes de tudo o que já vivemos e precisamos nos adaptar da melhor forma possível. A telemedicina tem se provado ser uma grande aliada e, por meio dela, seu médico sempre saberá indicar, por conhecer suas características, o que é melhor para você. E se não tiver um profissional de sua confiança, busque sempre a opinião de um especialista habilitado para que seja possível receber orientações precisas para o seu caso antes de qualquer tomada de decisão”, finaliza Bruno Ferrari.

————————
O que diz a OMS

A descoberta tardia pelo atraso na realização de exames de rastreamento e a falta de acesso a tratamentos, especialmente em países em desenvolvimento, estão entre os aspectos ressaltados pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, sigla do inglês), entidade ligada à OMS que estima os efeitos que afetam diretamente os cuidados oncológicos. A organização informou que nas duas últimas décadas o número total de novos casos de câncer quase dobrou, saltando de 10 milhões estimados em 2000 para 19.3 milhões em 2020. Além disso, em todo o mundo, um total de mais de 50 milhões de pessoas compõem o contingente de pacientes que vivem os chamados cinco anos de prevalência do câncer atualmente.

As projeções do Globocan 2020 indicam ainda que nos próximos anos há uma tendência de elevação dos índices de detecção do câncer, chegando ao patamar de quase 50% a mais em 2040 em comparação ao cenário atual, quando o mundo deve então registrar algo em torno de 28.4 milhões de novos casos de câncer. Isso significa que a cada cinco pessoas, uma terá câncer em alguma fase da vida. Nos países mais pobres, a incidência da doença deve ter um crescimento superior a 80%.

O número de mortes por câncer, por sua vez, subiu de 6,2 milhões em 2000 para 10 milhões em 2020 – uma equação que aponta que a cada seis mortes no mundo uma acontece em decorrência do câncer. E a tendência é que haja aumento nesse triste ranking, já que a OMS também indica que a pandemia trará como consequência mais casos de pacientes com câncer em estágio avançado por conta dos atrasos na descoberta e tratamentos de tumores malignos.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial